Antes de mais nada, quero me juntar ao coro e elogiar a postura transparente, respeitosa e segura do José Felipe. Que sirva de modelo.
Eu não queria comentar nesse tópico porque os membros mais antigos conhecem meu posicionamento, que eu já reiterei em diversas outras discussões parecidas. Mas o comentário do Pedro me motivou a fazer alguns apontamentos. O problema da discussão de preços da cerveja no Brasil é que os consumidores se limitam a atacar as cervejarias, os bares, os importadores e os revendedores; e não querem parar para pensar que são os hábitos de consumo do mercado que estão levando as cervejas especiais brasileiras a trilhar esse caminho. Há muito tempo comentamos aqui como a cerveja no Brasil rapidamente começou a sofrer um processo de "vinificação" (isto é, de associação com o luxo, o glamour e a exclusividade que cercam o mercado dos vinhos em grande medida). Isso está começando a ocorrer apenas agora nos EUA, por exemplo, e eles já têm um caminhão de rótulos artesanais populares e acessíveis.
É mais fácil apontar o dedo para o outro do que reconhecer que estamos sendo indulgentes com um padrão de consumo que está levando a cerveja especial a trilhar esse caminho. Quando sentamos num bar e derrubamos R$ 200 em cerveja numa noite (como sabemos que tem muita gente que faz todo mês, vide o tópico das degustações do fim de semana), estamos sinalizando aos produtores que nosso padrão de consumo é coerente com essa faixa de preços. E mais: estamos exigindo um tipo de logística que implica custos muito maiores. As pessoas reclamam, mas continuam comprando e bebendo, e esperam que os preços caiam. Isso jamais vai ocorrer. Por isso o Pedro foi corretíssimo em sua colocação: o fato de a Wäls ter escolhido uma bière brut em vez de uma Belgian pale ale para seu próximo experimento revela uma arguta percepção de mercado.
Estamos muito longe de ter um mercado de cervejas maduro no Brasil e um público consumidor proporcionalmente maduro. Entre os apreciadores de vinhos, sabe-se perfeitamente que certos vinhos são rótulos prestigiados, de produção escassa, intensamente valorizados pela especulação e pelo posicionamento consciente de mercado da vinícola. Mas a questão é que ninguém realmente espera que um apreciador de vinhos tenha de beber um Chateu Petrus se quiser entender de vinho. Não existe essa demanda (pelo menos não no mesmo nível que ainda existe nas cervejas), porque se trata de um mercado que se estruturou com uma percepção mais clara de que existem diversas faixas de preços, que alguns produtos são bens de luxo e ostentação (e não necessariamente de consumo), e que isso não impede ninguém de simplesmente se recusar a consumi-los porque existe uma ampla gama de novidades entusiasmantes a preços mais acessíveis. Não se liga tanto para um vinho que custa US$ 9 mil, porque o mercado recebe todos os dias lançamentos mais baratos e talvez igualmente interessantes. E estamos falando de um produto cujos preços de produção são naturalmente mais altos devidos às matérias-primas.
Acontece que, no mundo das cervejas, o mercado (estou falando de nós, porque não quero ficar transferindo a responsabilidade para terceiros) não tem essa percepção, e ainda está acostumado a se deslumbrar e valorizar desproporcionalmente os rótulos caríssimos e prestigiados. É como se todo mundo precisasse beber um Chateu Petrus para poder "fazer parte do clube". O marjeting aproveitador reforça essa percepção e os consumidores a reproduzem sem a menor distância crítica. Isso cria as condições perfeitas para que as cervejarias e importadoras se concentrem nesse tipo de rótulo, ou tentem precificar outros rótulos mais baratos de modo a criar uma percepção de mercado associada a esse tipo de prestígio. A culpa é delas? Especulação faz parte de qualquer mercado capitalista, mas a questão é que nós não temos a menor obrigação de alimentar a especulação.
Assim como o Pedro ou a Milu, eu estou interessado em cervejas que eu possa tomar no meu cotidiano, que eu possa consumir sem ter de gastar R$ 50 por final de semana só para uma bebericagem no bar. Estou interessado em coisas como a Wäls Pilsen que passou a chegar a preços competitivos, a nova Göttlich Divina com guaraná (que pretendo provar em breve), a vinda da DaDo a São Paulo por preços menores, o aumento da linha da Bamberg, o fato de estar cada vez mais difícil achar Eisenbahn nos supermercados, as possíveis transformações na receita da Baden Baden Red, as novas inglesas no mercado. Quero compartilhar minha empolgação pela complexidade que se pode descobrir em rótulos tidos como "bobos", que não estejam envoltos pela mística do mercado. Mas sinto que as pessoas não estão animadas com essas coisas: elas preferem gastar sua energia e seu interesse com cervejas caras e exclusivas. Quantos tópicos do fórum nos últimos tempos não se concentraram nesse tipo de lançamento?
Esses produtos têm seu lugar no mercado, sem dúvida. Eu mesmo os consumo: comprei uma Wäls Brut e pretendo bebê-la em comemoração a uma grande conquista da minha namorada, que se efetivará em breve. Mas quero mais lançamentos que eu possa pôr na minha geladeira sem esperar por comemorações especiais. É neles que tenho preferido investir meu dinheiro e, como dizem os americanos, "votar com o meu dólar". Quero um mercado em que o potencial criativo e o tesão de inovação e trabalho das cervejarias esteja voltado para rótulos de consumo acessível. Mas sei que uma andorinha não faz verão, então me limito a ver as melhores energias de nossa indústria se voltando para um tipo de produto do qual eu partilharei apenas lateralmente a empolgação. Não posso culpar essas empresas, elas estão dando ao mercado o que o mercado pede delas. Mas, acima de tudo, reservo-me o direito de manter uma visão crítica a respeito de um mercado cujos padrões de consumo levam a essa situação a cada dia.