Preço das Importadas no Brasil

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16 anos 4 meses atrás #3658 por Alexandre Almeida Marcussi
Filipe Nascimento escreveu:

da diminuição do público iniciante e do aumento do público especializado. [...] Mas muitas tendem a diminuir o patamar financeiro de acordo com o aumento do conhecimento do público.

Entendo o que vc quer dizer e faz sentido, mas não sei se concordo inteiramente. Acho que isso tem a ver com a forma como optarmos por despertar o interesse do público por cervejas especiais. Isso é estrategicamente crítico, ao meu ver.

Acho que, se o grande público inicialmente começar a beber cervejas especiais entendendo que consegue beber boas brejas por bons preços, será criado um mercado que resisitirá a pagar muito caro por brejas de qualidade semelhante. E, consequentemente, cervejas super-cotadas tenderão a vender menos. Quem domina esse processo não é o público "especializado", que já bebe as caras, mas justamente o público que não quer comprar as caras mas entendeu que existem cervejas baratas e gostosas. O melhor exemplo é dado pelas cervejas importadas pela AmBev: se o recém-iniciado entende que uma Leffe ou um Hoegaarden estão mais ou menos no mesmo nível de qualidade que uma La Trappe ou Chimay (sem entrarmos no mérito de nossa preferência por esta ou aquela marca), por exemplo, vai comprar as ambevianas com muito maior frequencia. Assim como, se entender que uma Colorado Indica não deve nada a uma Fuller's India Pale Ale, vai comprar a nacional com mais frequência.

Agora, se o público-alvo da criação de mercado for o público endinheirado, e a mensagem passada (mesmo que implicitamente) for a de que cerveja boa é cerveja cara, aí esse abuso nos preços não vai terminar, porque os importadores entenderão (corretamente) que o critério dominante na formação do mercado é a associação entre preço e qualidade. Essa associação já é arraigada na nossa cultura fetichista, então precisaria ser ativamente questionada para que o panorama mudasse. E, sinceramente, a imagem que alguns estabelecimentos passam da "boa cerveja" como uma coisa sofisticada, elitizada, "para poucos entendedores", não contribui em nada com isso.

Não acho que tenha necessariamente a ver com públicos "iniciantes" ou "especializados". Acredito que a formação de um público relativamente "iniciante" ou "leigo", mas consciente de que dinheiro não compra qualidade, pode exercer pressão considerável pela diminuição de preços.

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Porque cervejas são boas para beber, mas também são boas para pensar
  • um visitante
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16 anos 4 meses atrás #3664 por um visitante
Respondido por um visitante no tópico Re:Preço das Importadas no Brasil
Vocês estão ajudando a me convencer que não devo mesmo beber a DeuS no reveillon ! Rsrsrs... De fato estou com dó de torrar essa grana, sei que às vezes algumas estravagâncias fazem bem pro ego, mas como não estou com dinheiro sobrando (muito pelo contrário) fico me perguntando se devo mesmo comprar essa cerveja que todos dizem não valer tanto só por um capricho. Que é uma puta breja, disso não duvido, mas tão boa assim para custar quase R$ 200,00 ? Acho que optar por outras mais baratas e muito boas também é o melhor negócio, e deixar a DeuS para quando eu estiver passeando em Bruxelas !

:silly:

Enfim, como eu disse, o Brasil é um país de pobres mas moldado pra ricos, ou o que é pior, pra gente metida a rica porque dinheiro e status por aqui vale mais que caráter e dignidade, e é essa galera que inflaciona determinados produtos, os do tal mercado do luxo, e por luxo entendo exatamente como algo que transcende ao confortável, ao prazer, algo exageradamente supérfluo.

Tem muita gente bebendo Skol e Brahma em casa, mas à noite senta num barzinho bacana e pede uma especial só pra tirar onda porque mal sabe distinguir o lúpulo do malte.
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16 anos 4 meses atrás #3668 por Carlos De Manuel
Fábio (Guima) escreveu:

Vocês estão ajudando a me convencer que não devo mesmo beber a DeuS no reveillon !


Acho que o raciocínio é por aí mesmo Fábio... Ao invés da DeuS, fique com a Lust, que você acha por R$45-60 ou ainda a Lust Prestige a R$85... Pessoalmente até acho a Lust mais agradável (a Prestige ainda não provei).

Hehehe até porque deixando de gastar com estas cervejas superfaturadas, daqui a una anos vc já terá $$$ suficiente para beber DeuS a EUR10 em bruxelas...
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16 anos 4 meses atrás #3674 por Alexandre Almeida Marcussi
Fábio (Guima) escreveu:

Tem muita gente bebendo Skol e Brahma em casa, mas à noite senta num barzinho bacana e pede uma especial só pra tirar onda porque mal sabe distinguir o lúpulo do malte.

E nem precisaria saber, na real. Se for ver, tem bastante gente que posta avaliações aqui e se confunde com malte e lúpulo. Não há nada de errado nisso, são coisas técnicas e muito pouco claras, afinal ninguém come malte e lúpulo, não é mesmo? O prazer de beber uma boa cerveja especial não precisa ter nada a ver com saber diferenciar malte de lúpulo (ou identificar coisas extravagantes como DMS ou diacetil), trata-se de extrair satisfação de uma bebida surpreendente e agradável.

O que irrita mesmo é quando o cara se acha o entendido e sai achando que, porque sabe diferenciar malte de lúpulo (ou porque acha que sabe), é melhor do que os outros sentados ao lado. Ou seja, o clássico cervochato. E o pior é que, quando esse cara é um esnobe endinheirado, ele cara acha que compra o ingresso para o "mundo dos bacanas" ao pagar caro por cervejas supostamente mais requintadas e diferenciadas dos meros mortais.

Mas Guima, isso não tem nada a ver com vc beber DeuS ou Lust no reveillón. Ambas são cervejas caras e bem acima dos padrões normais e cotidianos de consumo da população. Mas o ano-novo é exatamente um momento em que saímos dos nossos padrões habituais de consumo e somos indulgentes até onde a carteira nos permite ir. Cada um sabe onde o calo aperta no bolso; eu mesmo gostaria de poder provar DeuS, mas vai ter de ficar para uma próxima ocasião, quem sabe quando eu e minha namorada não formos meros bolsistas pés-rapados. Não pretendo esperar ir a Bruxelas para tanto, até porque terei dinheiro para uma DeuS muito antes de ter dinheiro para a Bélgica! Acho que não tem nada a ver se sentir individualmente "culpado" por beber uma cerveja cara. Eu pretendo brindar com pessoas que amo com uma garrafa magnum de Lust, e não pretendo me sentir culpado por isso.

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16 anos 4 meses atrás #3724 por Carlos De Manuel
Alexandre. A questão não é se sentir ou não "culpado", e o ponto não são exatamente as cervejas caras, mas sim as superfaturadas.

S´o que não dá pra ignorar é que não existe método mais eficiente de comunicar ao mercado se o preço de um produto está adequado ou não do que comprando-o. Esta é aliás a essência do mercado em sua definição mais clássica.
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16 anos 4 meses atrás #3726 por Alexandre Almeida Marcussi
Carlos, da forma como eu encaro a questão (e não sou economista, então é opinião furada de leigo mesmo) nem sempre isso depende de um comportamento ativo do consumidor. O cara que compra DeuS por R$ 200 no ano-novo compra uma vez e acabou. Pode parecer que ele está "aprovando" essa política de preços ao comprar o produto, mas a verdade é que ele vai dar mais dinheiro para cervejarias e importadoras que vendem mais barato, e que ele vai comprar com muito mais frequência. Se o importador estiver mirando num público que não tem dinheiro para pagar R$ 200 numa garrafa toda semana, ele sabe que precisa diminuir o preço. Senão, vai continuar vendendo aquela pequena quantidade de garrafas que já vende. Como a margem de lucro dele é enorme, por outro lado, isso parece compensar num primeiro momento, mas é o tipo de estratégia burra (típica do mercado liberal) que inibe a formação do mercado e, no longo prazo, prejudica o próprio importador.

Ou seja, mesmo que eu compre uma DeuS para comemorar qualquer dia desses, como eu sei que simplesmente não poderia manter esse padrão de consumo nem que eu quisesse, no limite não posso servir de mercado regular para esse produto. Eles me perderam do mesmo jeito, enquanto a Eisenbahn ou a AmBev (estou falando das importadas, calma, pessoal!) me ganharam, e com isso garantiram lucro regular comigo. E aí eu continuo exercendo pressão, indiretamente (ao dar dinheiro à companhia concorrente), mesmo tendo comprado a DeuS uma vez, entende? Eu sou "pobre" o suficiente para não me sentir nem minimamente afetado por essas questões de consciência individual ou culpa. Até porque nunca consegui comprar nem uma única garrafa dessa cerveja.

Mas, como eu disse (acho que em outro tópico), pode ser que eu esteja sendo ingênuo, não sei.

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